Cineasta Holandês retratou Maranhão, Piauí, Amazonas e Pará do inicio do Século XX

 



José Rentes de Carvalho não está conseguindo dormir. Está passando por uma terrível noite de insônia. O romancista português apela então a alguém próximo para que lhe envie um livro que o distraia enquanto chega o sono. Chega em suas mãos A Faca e o Rio. O livro prende sua atenção de tal forma que o faz traduzir imediatamente para o francês, e o encaminha para o amigo George Sluizer, cineasta holandês. (1)

Sluizer nascera por acaso em Paris, daí o amigo lhe ter traduzido para o francês. Considerou o livro mais como um poema, pelas poucas páginas. Como Carvalho, se viu logo atraído pelo enredo, e resolveu filma-lo. (2)

Odylo de Moura Costa Filho, autor de A Faca e o Rio,  era adido cultural da embaixada brasileira em Paris. Sluizer foi lá encontra-lo. (3) Pediu autorização para a filmagem da obra, mas revelou que nunca estivera no Brasil, ao que Odylo respondeu:

- Não me importo que você seja estrangeiro, contanto que você ame a história. (4)

Difícil para quem gosta de histórias do Sertão não se apegar ao personagem João da Grécia, vaqueiro e caçador. Ele vem de um Nordeste Amazônico ainda selvagem, do final do século XIX. Mesmo já velho, os vaqueiros moços do início do século XX não tem a sua força para segurar o boi pelos chifres. E nem a sua coragem. Dispensa arma de fogo e até azagaia para enfrentar as onças. Prefere mesmo é usar a faca, se atracando com as feras. (5)

João também é sujeito honesto. E bom pai de família. Quando fica viúvo não arranja mulher enquanto não acaba de criar todos os filhos e casa todas as filhas que se espalham pelo mundo. Isso levam 20 longos anos. Fica com ele apenas um filho de criação. 

É na hora que João trata de arranjar mulher que vem os problemas. 

Vai falar sobre seu intento de casar com Maria ao seu patrão e amigo, um jovem juiz da pequena cidade de São Francisco, na beira do Parnaíba, no Maranhão. (6)

- João, não sei o que dizer, você é homem velho, mais velho do que eu, a moça mais nova, tem a metade da minha idade. Você soma os meus anos e os dela, está se arriscando muito. Só fico com cuidado porque você é um homem sério, mas ela, se bem que quase tem o seu sangue, é bonita e impetuosa.

- Doutor, não vestindo gibão, nem calçando perneira, não vou pegar boi no campo. Ou compro poldro novo ou cavalo velho não compro. Fui casado com mulher velha, se agora fizesse o mesmo estava mal. Tiro um espinho, boto outro. Tirei? Tirei não.

- Você não sabe o que é uma menina de dezoito anos.

- Ela está com vinte. Cavalo quando é novo e corredor quer tirar meia légua, a gente tira um quarto, ele baixa a quentura.

- João, olha bem, pensa no que você está fazendo. Na sua idade a gente não casa para desmanchar no outro dia, tem de dar o exemplo e respeitar o sacramento.

- Doutor, cavalo velho no capinzal de toco entristece, numa quinta verde, rincha. Não vou caçar tatu velho que não cozinha mais. Peguei um ruim, pego um melhor, não largo nunca.

A partir daí começa o momento de tensão na história. Sentimos como uma tragédia anunciada - um velho se casa com uma linda e jovem moça, com a idade de ser neta dele. João é uma boa pessoa. Mas sua mente é primitiva. Incapaz de empatia. 

Enquanto acompanhamos a história de João e Maria, vamos conhecendo o Maranhão, Piauí, Pará e Amazonas do início do século XX. João está sempre com alguma faca. Assim o vemos num cabaré risca faca paraense. E sua vida se liga também ao rio Parnaíba, onde o vemos navegando num gaiola. (7) Daí o nome do filme, A Faca e o Rio (Joao en het mes), de 1972.

Odylo e Sluizer procuraram por um caçador que matasse onça à faca. Mas homens como João, gerados num Sertão ainda bravio, a explorar, repleto de feras, de costumes brutos, já haviam partido há décadas. Não havia espaço para gente como eles na civilização do século XX. (8)



Esmak Soares



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1. BARROS NETO. Eziquio. Cenas de um filme em Caxias. 23 de outubro de 2017. Disponível: https://eziquio.wordpress.com/2017/10/23/cenas-de-um-filme-em-caxias2/ Acesso: 30/04/2025.

2. BARBOSA, Neusa. Entrevista: George Sluizer recria o universo peculiar de José Saramago. CineWeb. Disponível: https://www.cineweb.com.br/Entrevistas/Ler/16/Especiais . Acesso: 30/04/2025.

3. MORIBE, Patrícia. Filme holandês de 1971 desbrava Brasil profundo com Jofre Soares e Ana Maria Miranda. Rendez-Vous Cultural. 18/05/2018. Disponível: https://www.rfi.fr/br/cultura/20180518-cultura . Acesso: 30/04/2025.

4. BARBOSA. Op. cit.

5. Embora as onças de sua região não fossem grandes como as do Pantanal, onde o macho pesa até 100 kg (até 140 kg se encontra apenas no Cerrado Venezuelano) , ainda assim as que ele enfrentava tinham um porte perigoso para o ser humano adulto. O macho pesa até 72 kg. (FONSECA, Vandré. A maior onça já  registrada em Mamirauá - mas existem maiores por aí. O Eco, 7 de abril de 2017. Disponível: https://oeco.org.br/noticias/a-maior-onca-ja-registrada-em-mamiraua-mas-existem-maiores-por-ai/ . Acesso: 01/05/2025). Lembrando que são animais selvagens, constituídos de ótima estrutura muscular, providas de enormes presas, além de garras. 

Azagaia. Lança curta usada pelos antigos sertanejos no enfrentamento com as onças. O pantaneiro Estelito Rodrigues, nascido em 05 de janeiro de 1930 e falecido em 22 de novembro de 2012 (GLOBO RURAL. Conheça o pantaneiro Estelito Rodrigues,  que morreu esta semana. Disponível: https://globoplay.globo.com/v/2258833/ . Acesso: 01/05/2025), exibiu no Globo Rural como se usava tal arma, em reportagem de 1987 (GLOBO RURAL. Caçada à onça pintada. 37 min. 24/05/1987. Disponível: https://globoplay.globo.com/v/12234636/ . Acesso: 01/05/2025).

6. O jovem juiz era o próprio pai do Odylo, autor da obra. Embora não vejamos em nenhum momento o nome do juiz nem no filme e nem no livro, é pesquisando nos jornais da época que podemos verificar ser ele. Na primeira página do Diário do Maranhão - Jornal do Comércio, Lavoura e Indústria, N° 6802, de Sábado 2 de maio de 1896, consta que o juiz Odylo de Mora Costa, na época vivendo em São Luís, por motivo de moléstia deixa o cargo em 5 de março em 1896. É por isso que no filme o vemos algumas vezes balançando numa rede, meio esmorecido. Essa moléstia durará anos, conforme vemos nas publicações dos jornais, onde o vemos requerendo receber enquanto se encontra afastado, como nos Atos Oficiais, Despachos do dia 28 de fevereiro de 1901, publicado na página 2 do Diário do Maranhão, N° 8254, edição de sábado 2 de março de 1901: "O bacharel Odylo de Moura Costa, Juiz de Direito da Comarca de S. Francisco, requerendo três meses de licença com ordenado, para tratar de sua saúde onde lhe convier. - Concedo, em vista do atestado médico que exibiu." Odylo acompanhava a produção do filme. Foi ele quem deu os detalhes da saúde de seu pai ao Diretor do filme. Então a história de João da Grécia é verdadeira, embora deva conter licenças poéticas. 

7. Gaiola. Assim era chamado pelos ribeirinhos os navios à vapor.

8. Procura por caçador que matasse onça a faca. Odylo, em entrevista concedida à Televisão Difusora, anunciou que estava precisando de um navio-gaiola e de um caçador que mate onça à unha. No Gaiola, Odylo viajou quando era criança. Mas de caçador que matava onça à unha ele apenas ouviu falar que existia. Não vira nenhum. (LIMA FILHO, J. Confete. Jornal do Maranhão - Semanário de Orientação Cristã, n° 3.796, São Luís, 20 de abril de 1969, página 3.)

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