Um certo Capitão Antônio de Morais Bezerra que viveu no Sertão do Rio Grande de Norte
Em Velhos Inventários do Oeste Potiguar, de Marcos Antônio Filgueira, consta o de Antônio de Morais Bezerra, datado de 1818, de Villa da Princesa (Assú), Capitania do Rio Grande do Norte, comarca da Paraíba, tendo como inventariante Maria José da Assumpção, esposa de seu segundo matrimônio. Segundo Marcos Pinto, no artigo Onde a História desbanca a Ficção, publicado no Blog Carlos Santos em 18/01/2015, ele era capitão sendo tronco inicial da família Calheiros de Morais e Morais Castro. Até o momento sua origem era ainda desconhecida para historiadores e genealogistas. Mas com o auxílio da Genética, e tendo como apoio base documental, poderei dizer a procedência de sua família e de quem ele descende.
Contrariando aqueles que desprezam a Genética quando ela recua mais de quatro gerações, tenho feito várias descobertas com ela muito acima de 5 gerações. Considero a Genética como uma bússola. Ela apenas me dá a direção, não a distância precisa. Mas tendo o rumo certo isso já me basta. Tomo como exemplo os pais de minha tetravó Thereza Maria da Conceição, casada com meu tetravô Manoel Ponciano Bezerra. Em seu registro de óbito n° 58, datado de 14 de agosto de 1908, do Cartório do Apodi, constava que seus pais eram Antônio José das Virgens e Ana Maria da Conceição. Ora, havia um Antônio José das Virgens, no Apodi, que era filho legítimo de José Valentim e de Josefa Maria Bezerra, filha de Antônio de Morais Bezerra. O problema começava ao calcular sua idade, no registro de óbito (n° 41, 8 de outubro de 1891, Cartório do Apodi), e comparar com sua suposta filha. Pelo cálculo ele teria apenas 4 anos de idade quando ela nasceu. Já vi declarantes errarem em até 10 anos a idade de um falecido, mas não acima disso. E os filhos dele que eu encontrava tinham o nome da mãe divergente da que constava como minha pentavó Ana Maria da Conceição. Desanimado, deixei de lado o estudo sobre os descendentes de Antônio de Morais Bezerra, por não mais o considerar meu antepassado. Entretanto, passados alguns anos, conforme cresciam o número de usuários nas plataformas de Genealogia, mais eu notava que também aumentavam os descendentes de Antônio de Morais Bezerra que davam compatibilidade com meu pai, descendente da Thereza. Até que um dia, analisando a Árvore Genealógica de um desses descendentes que era do Apodi, me chamaram a atenção os nomes Pedro José Nogueira e Ana Isabel de Morais. Eu já os vira em minhas pesquisas, mas não estava certo onde. Aí arrisquei ver a transcrição do registro de batismo de Isabel, n° 17, datado de 8 de abril de 1821, da paróquia do Apodi, irmã de minha tetravó Thereza. E lá estavam os dois... José Nogueira e Ana Isabel como padrinhos dela! Aí fui tentar localizar o nome de meus pentavós no inventário de Antônio de Morais Bezerra. Foi aí que localizei a Ana Isabel, casada com Pedro José Nogueira. E me atentei para um irmão dela de nome Antônio José das Virgens. Ambos eram filhos de Antônio José das Virgens, já falecido na época do inventário do pai, em 1818. Como o pai homônimo, ele também não apresentava o nome da esposa. Mas com o teste de DNA de ancestralidade apontando o parentesco, e eu entendendo as informações documentais que tinha em mãos, não tive mais dúvida que o irmão de Ana Isabel era meu antepassado.
Quanto ao capitão Antônio de Morais Bezerra (ID GHNP-M3Y do FamilySearch), consegui identificar parentesco com 4 descendentes do tenente Raimundo Duarte Bezerra (ID K888-QKJ), nascido em Várzea Alegre no Ceará. Conhecido como Papai Raimundo, casou-se em 20 de agosto de 1788, na Capela das Lavras da Mangabeira, Ceará, com Teresa Maria de Jesus. Era filho do alferes Francisco Duarte Bezerra, nascido em 1739, na Freguesia do Icó, batizado em 1 de dezembro de 1739, no Sítio da Alagoa, Várzea Alegre, e de Bárbara Vieira da Rocha, também conhecida como Bárbara de Morais Rego, nascida em São Mateus, Jucás, Ceará, filha de Gabriel de Morais Rego e de Catarina Pereira de Almeida. Francisco Duarte Bezerra e Bárbara Vieira da Rocha se casaram em 4 de agosto de 1761, na Fazenda Riacho dos Cavalos, Freguesia do Icó. (1)
Tudo levava a crer que Antônio de Morais Bezerra seria filho do casal Francisco e Bárbara. E ainda no FamilySearch consta um Antônio como filho. Curiosamente, o capitão tinha uma filha com o nome de Ana Catarina, que parecia aludir aos nomes de suas avós Catarina e Ana. Felizmente, uma alma caridosa deixou anexada no casal a imagem do batismo de Antônio. Segue a transcrição, atualizada ortograficamente:
"Antônio, filho legítimo de Francisco Duarte Bezerra e de Bárbara Vieira da Rocha, natural ele desta Freguesia de Icó, Matriz dos Inhamuns, neto paterno de Bernardo Duarte e Dona Ana Maria Bezerra, materno de Gabriel de Morais Rego e de Catarina de Morais, nasceu em quinze de dezembro de oitenta e dois [1782], e batizado em vinte e três de janeiro de oitenta e três, pelo Padre Joaquim da Costa Mendonça houve os Santos Óleos. Padrinhos: Francisco José de Brito, casado, e dona Isabel Ferreira de Magalhães, solteira. Para constar mandei fazer este assento em que me assinei."
Ora, encontrei faz poucos dias a prova documental da ligação do capitão Antônio de Morais Bezerra com a família de Francisco Duarte Bezerra e Bárbara Vieira da Rocha:
"Aos vinte nove dias do mês de setembro de mil setecentos e noventa e nove, feitas as Denunciações na forma do Sag. Conc. Trid. nesta Igreja Matriz de Arneiroz sem se descobrir impedimentos na minha presença e das testemunhas Francisco Alves Feitosa e Francisco Estêvão da Silva, se receberam solenemente em matrimônio com palavras de presente Manoel Antônio Bezerra, viúvo de Luiza Maria, apresentando-se certidão de Óbito de sua falecida mulher, filho legítimo de Antônio de Morais Bezerra e de Maria José da Cunha, com Perpétua Maria de Santa Ana, filha natural de Antônio Correia Pereira e de Ana Maria, já defuntos, e moradores nesta de Arneiroz, de donde apresentou banhos das Russas [certidão de batismo], e logo lhes as bençãos conforme o Rito e Cerimônias da Santa Madre Igreja, sendo confessados e examinados de doutrina de que para constar mandei fazer este assento e me assinei.
O cura Antonio Lopes de Azevedo" (2)
Com essa informação, sabemos que no mínimo Antônio de Morais Bezerra se casou em 1780, não podendo então ser o filho de Francisco Duarte Bezerra e Bárbara Vieira da Rocha, nascido em 1782. Manoel Antônio Bezerra é o segundo filho que aparece em Velhos Inventários como Manoel Antônio de Moraes.
A testemunha Francisco Alves Feitosa é o Sargento-mor genro do coronel Eufrásio Alves Feitosa, neto de Antônio Bezerra do Vale e Maria Alves de Medeiros, de Tracunhaém, Pernambuco, avós maternos de Francisco Duarte Bezerra. Então encontramos aqui uma ligação familiar (3).
Certamente, o capitão Antônio de Morais Bezerra vai descender de Antônio Bezerra do Vale e Maria Alves de Medeiros. Antônio Bezerra do Vale é identificado como Antônio Bezerra de Menezes, na Nobiliarchia Pernambucana, de Borges, vol. II, p. 89 e 90, como filho de Bento Rodrigues de Pereira, que morou em Goianna, e Petronilla de Menezes, natural da Bahia. Koren de Lima, em seu volume sobre os Bezerras, apesar de declarar que Bento Rodrigues Bezerra e Petronilla Velho de Menezes serem a origem dos Bezerra de Menezes de Pernambuco e do Cariri, Jaguaribe e Vale do Acaraú, no Ceará, nega este descender de Domingos Bezerra, como querem os linhagistas cearenses, entre eles Eduardo de Castro Bezerra Neto, Vinícius Barros Leal e Raimundo Teles Pinheiro, por constar no título dos Bezerras Barrigas. Ora, ao meu ver os cearenses citados estão certos. Na Nobiliarchia de Borges está repleta de erros, sejam dele, ou seja de quem transcreveu (e ainda assim devemos estar gratos e não reclamar de quem transcreveu, ou não teríamos a obra em mãos). No vol. I da Nobiliarchia, p. 42 vemos: 5 - Bento Rodrigues Bezerra, como filho de Simoa Bezerra e Bento Rodrigues da Costa, filho de Manoel Rodrigues e de Maria Simões. O nome aparece listado com os irmãos. Quando não há sucessão, geralmente Borges menciona. Mas não foi o caso dele. Por algum motivo vai só constar no volume II, mas segue com a numeração 5. Quanto ao nome Bento Rodrigues de Pereira, em vez de Bento Rodrigues Bezerra, dou como exemplo minha antepassada Bertholesa Cavalcante de Albuquerque, casada com meu antepassado Marcos Dantas da Cunha - na pág. 475 do vol. II ela surge como Boaventura Cavalcante!
Então, prosseguindo, e estando de acordo com Eduardo de Castro Bezerra Neto, Vinícius Barros Leal e Raimundo Teles Pinheiro, Simoa Bezerra, mãe de Bento Rodrigues Bezerra, era filha de Domingos Felpa Barbuda e de Antônia Rodrigues Delgado, filha de Cosme Rodrigues e de sua mulher Simôa da Rosa. E Domingos era filho de Domingos Bezerra Felpa de Barbuda, filho de Antonio Bezerra Felpa de Barbuda, natural de Ponte de Lima, e de sua mulher Maria de Araújo, que vieram à capitania de Pernambuco com Duarte Coelho; e de Brasia Monteiro, filha de Pantaleão Monteiro e de Brasia Monteiro. (4)
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1. AUGUSTO, Francisco Augusto de Araújo Lima. Siará Grande, uma Província Portuguesa no Nordeste Oriental do Brasil. Expressão Gráfica e Editora. Fortaleza, 2016, p.464 a 465.
2. FEITOSA, Carlos. Casamentos de Arneiroz - 1786 a 1801 - transcrição.
3. AUGUSTO, p. 459.
4. FONSECA, Antonio José Victoriano Borges da. Nobiliarchia Pernambucana. Vol. I. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Volume XLVII, 1925. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1935, págs. 35, 39 e 42.
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