Os Julião do Apodi
De temperamento explosivo, ai do sujeito que entrasse em confusão com eles. A cana larga do punho dos homens da família Julião tornava seus golpes bem mais potentes. Era como receber uma marretada na cara, podendo levar o oponente a nocaute. Assim meu pai descreveu para mim esses galegos do Apodi, há umas décadas atrás. Segundo ele, eram de alguma posse. Desse ramo familiar, meu pai herdou apenas o temperamento explosivo. A cana larga do punho parou em meu avô paterno. Não foi repassada para meu pai, nem para mim, e nem para meu irmão essa parte da herança genética dos Julião. O contato com essa família teria se perdido no término dos anos 60 do século passado. Desde o início de minhas pesquisas genéticas via descendentes dos Guilhermes de Mello e outras famílias de Mossoró tendo ligação de parentesco com meu pai. Hoje sei que essa ligação vem pela família dos Ausentes.
Entre o final de setembro e início de outubro de 2021, pouco mais de um ano em que eu me aventurava pela Genealogia, encontrei o registro de nascimento de n° 902, datado de 3 de agosto de 1937, do cartório de Caraúbas, de uma Francisca Assis Bezerra, filha de Gil Paulino Bezerra e Maria Joana da Conceição, casal que residia no Apodi, mas na época do registro estavam morando em Divinópolis, atual Umarizal. Ora, os avós paternos de meu pai, segundo a família, eram Gil Ponciano Bezerra e Maria Joana da Conceição. Aquele sobrenome Paulino é que não se encaixava. Tive que entrar em contato com minha tia Conceição. Ela não sabia dizer de onde era o Paulino, mas a Francisca Assis Bezerra era sua sogra. Com o tempo é que fui aprendendo que um familiar remoto pode ser conhecido erroneamente pelos descendentes por outro sobrenome, além do indivíduo fazer uso de mais de um sobrenome de sua família. No caso do meu bisavô Gil, o erro vinha por se basearem no nome do filho dele, Manoel Ponciano Bezerra. Foi através desse registro da sogra de minha tia que consegui encontrar os Julião. Ali estavam os pais de Maria Joana da Conceição, Manoel Francisco do Nascimento e Joana Batista. Com o decorrer do tempo acabaria sabendo que Manoel era filho de um Julião, Manoel Francisco Julião.
O sobrenome Julião se alternava, em alguns membros, com o Nascimento. E neste ano de 2026 fui aprender que o Nascimento poderia também ser alternado com o Araújo. Passei anos tentando encontrar pistas sobre o Julião mais remoto da minha linhagem até agora encontrado, Francisco Manoel de Araújo. Só tive êxito quando passei a me indagar se João Francisco Nascimento, ao declarar o óbito do tio Manoel Francisco Julião, em 23 de janeiro de 1915, no cartório do Apodi, estaria certo ao declarar o nome do avô. E seu eu trocasse o Araújo por Nascimento? Foi assim que fiz a descoberta de Francisco Manoel do Nascimento em registros mais antigos. Entretanto, o nome da esposa, Maria Francisca da Conceição, fora repassado corretamente pelo neto no óbito do filho Manoel.
Mais uma descoberta eu fiz, bem no início deste mês de maio. Maria Francisca da Conceição, minha pentavó, era filha de Ezequiel Gamello de Oliveira, já que o nome dela aparece em seu inventário, de 13 de junho de 1862, sentenciado em Mossoró, tendo como marido Manoel do Nascimento, que não tive dúvidas que era meu pentavô Francisco Manoel do Nascimento. Como posso ter essa certeza?
Como já disse logo no início, através de pesquisas genéticas. Ora, no inventário de Thereza Maria de Jesus, irmã de Ezequiel, de 1859, também de Mossoró, consta o nome Manoel de Freitas da Silva, casado com a filha dela, Anna Thereza de Jesus. Esse Manoel de Freitas da Silva aparece como padrinho de dois filhos do casal Francisco Manoel do Nascimento e Maria Francisca da Conceição, Francisco e Antônio, realizados no ano de 1825. Embora eu ainda não entenda a ligação de parentesco direta com ele, no MyHeritage, site de genealogia, acusa parentesco com um neto de Benvenuto José da Silveira, que viveu entre 1888 e 1958, que era descendente de seu irmão Gonçalo Soares de Freitas, filho de Gonçalo Soares da Silva e Fabiana Barbosa de Freitas, e de Maria Tereza de Jesus, filha de Antônio Nunes de Medeiros e Thereza Maria de Jesus, patriarcas da família dos Ausentes, de Mossoró.
Fausto, em História de Mossoró, diz que Ana Nunes de Medeiros, filha de Antônio Nunes de Medeiros e Tereza Maria de Jesus, casou-se com Manuel de Freitas Costa. Ora, no inventário da mãe, ela consta como ANNA THEREZA DE JESUS, casada com MANOEL DE FREITAS DA SILVA. Portanto, Manoel de Freitas da Silva é o mesmo Manuel de Freitas Costa.
Ainda em História de Mossoró, vemos FABIANA BARBOSA , filha de Alexandre Neto de Freitas Costa, natural de Guimarães, e Ana Rocha, do Rio Grande do Norte, casada com GONÇALO SOARES DA SILVA, natural do Rio São Francisco, com o qual teve os seguintes filhos:
Gonçalo Soares de Freitas Filho
Manoel de Freitas e Silva (Manoel de Freitas Costa)
Ana Soares de Freitas
No registro de batismo datado de 8 de fevereiro de 1850, no lugar Jardim, da Freguesia de Mossoró, tendo como testemunhas Gonçallo Soares de Freitas e Simão de Freitas Costa, casaram-se Manoel Soares de Freitas, filho de Gonçallo Soares de Freitas, falecido, e de Maria Thereza, com Ana Maria de Freitas, filha de Manoel de Freitas da Silva e de Anna Thereza. Esse registro não deixa a menor dúvida sobre a origem familiar de Manoel de Freitas.
Francisco Fábio Duarte dos Reis, em Subsídios para um Estudo Genealógico sobre a Família Duarte em Mossoró, Coleção Mossoroense, Série B, número 1345, setembro de 1996, estranha Francisco Fausto de Souza classificar apenas o casal Antônio Nunes de Medeiros, natural do Seridó, e Thereza Maria de Jesus como tronco dos Ausentes. Segundo ele, outros irmãos de Thereza herdavam também o sítio Ausentes:
JOÃO LOPES D’ OLIVEIRA LIMA, casado com Francisca de Jesus Freitas;
EZEQUIEL GAMELLO D’ OLIVEIRA, casado com Francisca Bezerra de Jesus;
CISILIO LOPES DE LIMA, falecido solteiro em 1841;
PORCIDÔNIO JOSÉ D’OLIVEIRA
ANTÔNIA LEITE D’ OLIVEIRA
MARIA IGNÁCIA D’ OLIVEIRA
Ezequiel herdou o nome do padre Ezequiel Gameiro, que fora cura e vigário da freguesia das Russas, no Ceará. Talvez tenha sido batizado por ele. Borges, em Nobiliarchia Pernambucana, vol. 1 p. 265, diz que chegou ainda a conhecer Luciano Gameiro, capitão da Ordenança, morador de Olinda, filho de Gonçalo Gameiro, natural de Olinda, e de Ursula de Sousa, filha de D. Brites de Sousa e Diogo Barreiros, da cidade da Paraíba. Luciano, além do padre, teve com Águida Bezerra, irmã de Leandra Tavares, sua cunhada, os filhos Antônio Gameiro, D. Maria do Ó, D. Úrsula de Sousa.
O casal Francisco Manoel do Nascimento e Maria Francisca da Conceição tiveram os seguintes filhos, que se sabe até o momento:
FRANCISCO JOSÉ BEZERRA, nascido em 2 de janeiro de 1825, sendo batizado pelo padre Faustino Tomaz de Oliveira em 14 de setembro de 1825, tendo como padrinhos Manoel de Freitas da Silva e Josefa da Silva Cunha. Casado com Joana Maria da Conceição, foram pais de Pedro José Bezerra, que se casou com Maria Maphalda de Oliveira, filha de Francisco Borges da Costa e Maphalda Gomes da Costa. Foram testemunhas deste casamento o seu tio paterno Manoel Francisco Julião, e Francisco Sales da Costa, da parte de Maria Maphalda.
ANTÔNIO, nascido precocemente, em 11 de junho de 1825, apenas seis meses após Francisco. Ao que parece, durou bem pouco após o batismo, em 15 de novem de 1825, realizado pelo padre Faustino, já que nada posterior foi encontrado sobre ele. Seus padrinhos foram Manoel de Freitas da Silva, que, como já visto, fora padrinho naquele mesmo ano do irmão Francisco, e Maria Rosa do Sacramento.
MANOEL FRANCISCO JULIÃO, nascido em 1835, no Apodi, era morador no Sítio Guaxinim. Casado com Isabel Maria da Conceição, faleceu no dia 22 de janeiro de 1915, em consequência de uma hérnia.
GALDINO JOSÉ BEZERRA, nascido em 1839, casou-se em 21 de abril de 1883, na paróquia de São Sebastião de Caraúbas, com Maria Michelina de Oliveira, viúva de Misael de Sousa Nunes, tendo como testemunhas Vito Pereira Jacome e Honório Gentil da Silva Souto, sendo o casamento realizado pelo padre Pedro Soares de Freitas. No registro não se menciona que Galdino também era viúvo, pois em 6 agosto de 1862 havia se casado, também em Caraúbas, com Josefa Miquilina Bezerra, sua prima, já que o padre menciona em dispensa do parentesco de sanguinidade. Maria e Josefa deveriam ser irmãs, já que Roberto José Bezerra, testemunha no casamento de Josefa, além de Francisco Marinho da Costa, quando falece no sítio Apanha Peixe, no Apodi, na manhã do primeiro dia de outubro de 1914, com 94 anos de idade, deixara com vida uma filha com sobrenome Michelina, Antônia Michelina Bezerra, viúva com 62 anos de idade, além dos outros filhos que tivera com sua falecida esposa Thereza Maria de Jesus, Herculana Maria Bezerra, viúva, com 69 anos, Francisco Marcelino Bezerra, casado, com 66 anos, Luis Gomes Garantizado, casado, com 64 anos, e Agostinho Francisco da Costa, casado, com 60 anos de idade. Galdino e Josefa perderam a filha Catarina Maria Bezerra, de 15 anos de idade, falecida em decorrência de uma moléstia no peito, em 14 de outubro de 1877. Era viúvo de Maria Michelina quando faleceu no dia 18 de setembro de 1909, no sítio Pedrez, em Caraúbas, deixando uma filha desta união, Joaquina Miquelina de Oliveira, casada com João Francisco de Oliveira. Foi sepultado no cemitério de Caraúbas, conforme consta em seu registro de óbito, n° 41, datado de 19 de setembro.
THEODOLINA MARIA DO ESPÍRITO SANTO, casada em 18 de junho de 1859, na paróquia de São Sebastião de Caraúbas, com Reynaldo José de Santa Anna, filho de Raimundo José Nogueira e Anna Joaquina d’Anunciação, tendo como testemunhas Pedro José Nogueira e Manoel Cipriano Bezerra, e o casamento realizado pelo padre Florêncio Gomes de Oliveira.
Francisco Manoel do Nascimento, nascido no Apodi em 1794, faleceu no dia 16 de janeiro de 1879, vitimado por câmaras de sangue. Já era viúvo de Maria Francisco nessa data, conforme se vê no livro Casamento e Óbitos de Caraúba, de Antônio Gomes de Sales.
Desde 2022, guardo imagens de documentos de alguns judeus portugueses com Julião no nome que se foram com os holandeses para Curaçao. Elas vem do The Genelogical Society, localizado em Salt Lake, Utah, nos Estados Unidos, que os guardou no filme de N° 404, volume 1484, filmado em The Hague, no dia 29 de junho de 1948, com o título Portugeesche Israëlieten, da cidade de Curaçao, Província da Índia Ocidental, lista de registros de nascimento e óbitos que abrangem os anos de 1722 a 1831. Os que encontrei são:
Abm. de Dd. Henqe. Julião (Abraão de David Henriques Julião), nascido no dia 12 de kisleu de 5530 (1769 da Era Cristã), e falecido no dia 27 de nissan do ano 5581 (1820).
Mos. Henriques Juliao (Marcos Henriques Julião), nascido em 1 de tebet de 5531 (1770), e falecido no dia 26 de nissan de 5573 (1812). (1)
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1. Mos. - Marcos. FLEXOR, Maria Helena Ochi. Abreviaturas – Manuscritos dos Séculos XVI ao XIX. Casa Civil – Presidência da República. Arquivo Nacional. 3.a edição revista e aumentada. Rio de Janeiro, 2008, pág. 253.
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