ACREDITEM! Era um Livro Cristão Infantojuvenil...
Eu tive o privilégio de conhecer a arte do italiano Gianni De Luca, por volta dos meus 10 anos de idade, quando meu pai me presenteou com A MAIS BELA HISTÓRA - A Bíblia em Quadrinhos. Era o ano de 1984. Fiquei fascinado com os desenhos que ilustravam em forma de quadros cada passagem bíblica adaptada para o público infantojuvenil. As histórias eram narradas por Attílio Monge e João Ziella. O título original era La piú grande storia mai raccontata, publicada pela Ediozini Paoline, editora católica, que teve sua primeira edição em Roma no ano de 1969. Foi traduzida por João Paixão Netto. Attílio iniciava o livro com uma bela introdução, que se no meu tempo já era legal, no dele, mais ainda:
"Os três astronautas que pela primeira vez na história do mundo percorriam as órbitas em volta da lua, alternaram-se na leitura do primeiro capítulo de um livro, o único que tinham consigo: a Bíblia. E do silêncio eterno dos espaços infinitos, chegaram as palavras que diziam: No príncipio Deus criou o céu e a terra.
Se durante um naufrágio, te fosse dado salvar somente um livro, qual escolherias? A esta pergunta, há alguns anos, os leitores de um jornal responderam diversamente, manifestando predileção, uns pelos grandes escritores do passado, outros pelos autores contemporâneos, nacionais ou estrangeiros, em prosa e em verso. Um leitor admitiu - se por gracejo ou, não saberia dize-lo - que o único livro que ele teria posto a salvo seria Pinóquio, enquanto outro manifestou franca preferência por D. Quixote. A maioria, porém, esteve de acordo em que o livro mais importante que se devia levar consigo era a Bíblia ou, pelo menos, o Evangelho. (...)"
Se em A Mais Bela História o De Luca já encantava com uma arte séria, sem aquele sentimentalismo açucarado que afastava eu e outros meninos de minha faixa etária e acima, mostrando o terror das pessoas sendo tragadas pelo dilúvio, e depois os corpos delas juncando o monte em que aportou a Arca de Noé, que aparecia como representação da Igreja; o general cananeu Sísara com um enorme prego enfincado em suas têmporas, e sua assassina ainda segurando uma marreta; Absalão ficando suspenso pelos seus longos cabelos que ficaram enroscados nos galhos de uma árvore; os cães lambendo o chão que se enxarcara com o sangue do perverso rei Acab; com A HISTÓRIA DA IGREJA - em quadrinhos, ele se superaria nos dramas históricos que ilustrava. (1)
Fui ter essa obra em mãos quando meu pai presenteou meu irmão caçula com ela. Ela foi publicada na Itália primeiro que A Mais Bela História, no ano de 1967, pela mesma editora, com o título I dodici in cammino, Os Doze a Caminho, no Brasil.
Os Doze a Caminho tinha por capa Pedro e o papa Paulo VI, ou seja, contava a história desde o apóstolo Pedro, em Roma, tido pela Igreja Católica como o primeiro papa, até Paulo VI, com textos do já citado Attílio Monge, com um outro parceiro, Bruno Simonetto. Já A História da Igreja tinha por capa Pedro e o papa que marcou os anos 80, o polonês João Paulo II.
A História da Igreja, em quadrinhos, que eu só avançava as páginas conforme os avanços da minha leitura, reprimindo a minha curiosidade pelas ilustrações seguintes, me apresentou um mundo governado pelo Império Romano, que perseguiu impiedosamente os cristãos. Mas o sangue dos mártires brotava como múltiplas sementes, chegando ao ponto de membros da família imperial se tornarem também seguidores de Cristo, e terminarem dilacerados pelas feras. Séculos se passariam, e os seguidores aumentariam de tal forma que fora preciso executar os soldados de uma legião romana por inteiro. Tribos germânicas vão sendo empurradas para as fronteiras do Império pelos hunos. Os generais romanos Estilicão e Aécio, cada um em seu tempo, esmagariam os inimigos de Roma. Mas a cada morte de um desses heróis a civilização Ocidental sofria grandes baques. Sem eles, o mundo romano vai se acabando a ferro e fogo pelos bárbaros germânicos, retratado com maestria por De Luca.
Na imagem inferior desta publicação, a cidade norte-africana de Hipona, depois de perder seu grande bispo, Santo Agostinho, é saqueada e destruída pelos vândalos, que vem acompanhados pelos mouros. Na superior, vemos um longobardo assentando sua bota contra um guerreiro gépida enquanto enterra furiosamente nele a espada. A rivalidade entre essas duas tribos bárbaras eu já conhecia bem antes de ler A História da Igreja. Assistira na TVS, que Sílvio Santos mais tarde mudaria o nome para SBT, o filme italiano A Espada do Conquistador (Rosmunda e Alboino), de 1961, estrelado por Jack Palance, aquele que apresentaria o icônico programa Acredite se Quiser (Ripley's Believe It or Not!), no início dos anos 80. O filme era ruim, mas valeu por conhecer a história da gépida Rosamunda, que foi obrigada pelo marido, Alboíno, rei dos longobardos, a beber no crânio de seu próprio pai, para demonstrar lealdade.
Com A História da Igreja fui assistindo um mundo ocidental bárbaro e caótico. Das antigas províncias romanas na Europa que foram invadidas e devastadas, vão nascendo os Estados europeus que conhecemos hoje. Clóvis, rei dos francos, (2) será o grande responsável por tornar cristãos o seu povo. Alguns séculos depois vem Carlos Magno, que após se afirmar como defensor da Igreja, construirá um Império. Seus feitos e de seus cavaleiros ficaram tão enraizados na Europa que passados 1200 anos seriam ainda lembrados pelos descendentes no outro lado do Oceano Atlântico. Lembrados nos sertões do nordeste brasileiro na Literatura de Cordel e na Cavalhada, espécie de torneio popular, de origem ibérica. (3)
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1. Logo depois eu viajaria com meus pais para Umarizal, cidade do oeste potiguar. Lá eu só gostava das aulas do padre Mariano, quando ele narrava as histórias dos santos em slides (agora não contarei de qual santo que mais gostei da história por ser época de eleição, e vão dizer que estou fazendo propaganda eleitoral. Ano que vem talvez eu conte). Mas quando eram as aulas de irmã Carmélia, eu as achava muito chatas. Um dia, meu primo Alexandre, o melhor amigo que eu tinha por lá, pois tínhamos em comum o amor pela História me revelou que era ateu. Perguntei por quê. E ele me respondeu que era por causa das cantigas que a irmã Carmélia nos fazia cantar. Foi aí que peguei os dois livros ilustrados por De Luca, A Mais Bela História e História da Igreja. Ele, então, me disse que não sabia que haviam histórias tão legais na bíblia e no cristianismo. E que a partir daquele momento estava convertido. Essa foi a única pessoa que eu converti ao cristianismo na minha vida. Desconheço se foi duradoura. E somente adulto, já sem contato com esse meu primo, ao conhecer genealogia, é que eu soube que nosso parentesco vinha pelos Cavalcantis - e talvez aí esteja a explicação de nosso amor por esse conhecimento, pois em nosso sangue corre o de incontáveis grandes personagens da História não só brasileira, mas mundial. Muitos desses nossos antepassados conheci pela arte de Gianni De Luca.
2. Dirceu Mosquette Junior, jornalista de Bauru, meu parente longínquo pela parte dos Cavalcantis, me afirmara que descendíamos de Clóvis. De Carlos Magno, eu tinha certeza. Já o primeiro rei dos francos, que remontava quase à Idade Antiga, eu era cético. Tentara várias vezes sem sucesso checar por provas documentais. Achei que ele se baseava na árvore genealógica do FamilySearch, plataforma genealógica dos mórmons, que por ser compartilhada por todos, está sujeita a erros, além de sabotagens. Mas agora creio ter encontrado o caminho para que eu certifique para mim a veracidade das informações do site dos Mórmons até tão distante ancestral. Dirceu tinha razão. Aliás, como eu, vi que ele pesquisa muito sobre História Antiga. É autor de um livro sobre nosso ancestral Jerônimo de Albuquerque, que nos liga aos mais diversos personagens da história humana.
3. KUNZ, Martine. A Transversalidade da Voz: Carlos Magno da Idade Média ao Sertão. Imaginários Sociais em Movimento: Oralidade e Escrita em Contextos Muticulturais, págs. 213 a 221.
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